quarta-feira, 23 de setembro de 2009

El poder y el delírio

Em uma livraria de Caracas encontrei um livro que despertou meu interesse pelo título, pela foto da capa e, depois, pelo prefácio.
El poder y el delírio, do jornalista mexicano Enrique Krauze, se autodeclara um livro de jornalismo histórico, com rastros de crônica e análise política.

As primeiras páginas são particularmente úteis porque trazem um resumo da história venezuelana e latino-americana em toda a era pós-colonial, completamente ignorada em minha educação formal. Descobri que a Venezuela foi um caso particular na América Latina, um país que atravessou as décadas de 60, 70 e 80, marcadas pelas sangrentas ditaduras militares direitistas no continente, em uma democracia plena e próspera. Pude entender melhor a revolução de 1945, a figura de Rómulo Betancourt, os efeitos da ascensão e queda dos preços do petróleo, o Caracazzo.

Depois, a narração dos fatos que conduziram Chavez ao poder e suas estratégias, logros e falhas. O autor afirma que o livro segue a linha factual mas sem se abster da crítica. Lendo-o, me dei conta de que isso é fato mas, pelo prefácio, esperava que o tom da crítica fosse mais moderado. Tenho lido o livro pautando-me pelos fatos e fazendo a crítica por minha própria conta.

Minha opinião sobre a liberdade na Venezuela se resume em um fato: embarquei com meu livro na bagagem despachada. Tive medo de que a guarda bolivariana, ao vê-lo em minha bagagem de mão, pudesse dificultar minha vida.

Entrevista com o autor:



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Mesa redonda internacional?

Antes de pegar no sono liguei a TV na Telesur, aquele canal de TV idealizado por Chavez para ser a voz bolivariana em todos os países da América Latina. E o programa da vez se chamava Mesa Redonda Internacional.

A internacionalidade do programa estava garantida pela presença do professor cubano, um homem bastante inteligente e ponderado, diga-se de passagem, que compunha a mesa com o âncora e o líder partidário venezuelanos de sempre.

O tema: os primeiros 7 meses de Obama como presidente dos Estados Unidos, sua atuação em relação à crise, sua política internacional e a reforma do sistema de saúde.

Achei muito bom poder ouvir o que pensa um acadêmico cubano, especialista no assunto e livre da prisão à ideologia, sobre o que se passa nos Estados Unidos e seu papel no mundo (quanto aos outros dois participantes, o fato de abrirem a boca era a senha para eu trocar de canal para a trasmissão do Miss Universo).

E o homem disse coisas relevantes, cujos highlights eu pinço aqui:

- que a atuação em relação à crise foi focada no setor bancário. Nada de resgatar o New Deal de Roosevelt (afinal, o mundo hoje é outro) e que o fato dos bancos estarem dando lucros é bom sinal, mas há de se esperar para ver se será suficiente para trazer a confiança de volta, criar empregos e reativar o consumo.

- que a política externa de Obama, ao contrário da interna, tem muito pouco de sua marca pessoal. É uma política claramente conduzida pelo partido e Hillary segue a cartilha de Madeleine Albright, secretária de Estado durante a gestão de seu marido. A decisão de abandonar o Iraque e dar foco ao Afeganistão já era citada desde 2001, por Albright, como o caminho a seguir, pois o recado é dado ao Teleban (e qualquer outro que queira se meter com os americanos), a indústria bélica continua aquecida e a imagem transmitida para o mundo não fica tão comprometida.

- que a relação com a América Latina nem aparece na lista de prioridades.

- que a situação do sistema de saúde vai exigir uma dresteza política de Obama superior à destreza que ele mostrou nos seus discursos para romper o racismo e o medo e poder se eleger. Falar à sociedade americana da necessidade de uma opção pública de plano de saúde, mesmo quando o sistema atual é reconhecidamente ineficaz (deixando cerca de 1/4 da população descoberta), dá nós nos estômagos, mexe com os instintos básicos dos políticos e eleitores republicanos e, inclusive, dos setores conservadores do partido democrata. A quantidade de interesses divergentes, de gente muito grande, é tanta, e o dinheiro a ser investido para viabilizar o plano é tanto (em um país com as contas públicas nada balanceadas), que a briga comprada por Obama é, com certeza, maior que a comprada porBush para viabilizar a guerra no Iraque.
Obama não apresentou uma proposta, mas princípios para que a proposta fosse elaborada pelo congresso. No entanto, uma reforma que não contemplasse a existencia de uma opção pública, com a qual uma parte do congresso acenou, já foi dada como inviável pela cúpula governista.

- que, no segundo inning, Obama perde por uma ou duas corridas.

Bicampeão!

Quando pensa na Venezuela, o que lhe vem à mente?

Chávez, petróleo, arepa, praias incríveis, beisebol e... miss Universo!

Ontem à noite, pela primeira vez, a coroa de mulher mais bela del universo y alrededores (descobri que a expressão é usada por aqui também) ficou em um mesmo país por dois anos consecutivos.

Dayana Mendoza entregou o título para Stefania Fernandez, em uma cerimônia que foi televisionada pelo principal (depois que a concessão da RCTV nao foi renovada) canal privado de TV do país.

Para meu desapontamento, não ouvi fogos de artifício, não ouvi gente celebrando nos quartos vizinhos e, na manhã seguinte, ninguém comentou sobre o fato no lobby do hotel, no táxi ou no almoço.



domingo, 16 de agosto de 2009

Inflação

A Venezuela recentemente trocou de moeda. Os Bolívares foram trocados pelos Bolívares Fuertes; basicamente a mesma moeda, lida com tres zeros a menos. Nenhuma medida cambial efetiva foi tomada, de modo que, a nao ser pelo novo desenho das moedas (e o dinheiro gato nessa operação), nada mudou. A infação continua acima dos 30% anuais e o Bolívar no mercado paralelo vale 1/3 do que a Comissão de divisas de Chávez diz que vale.

Um caso bem mais crítico do efeito da inflação sobre a vida das pessoas pode ser visto em um outro país, mais pobre, menos democrático e em uma situação bem pior que a da Venezuela. O Zimbabwe. A coisa por lá chegou a um extremo que o governo recentemente emitiu notas de 100 trilhões de dólares do Zimbabwe, que valiam cerca de 50 reais (no dia do lançamento, hoje, não compra um pãozinho) .

Encontrei um vídeo no Youtube e achei brilhante, por isso esse post.



sábado, 15 de agosto de 2009

O preço das coisas

O El Nacional (jornal que recebo diariamente na porta do meu quarto no hotel) de hoje era, obviamente, dedicado principalmente aos desdobramentos da aprovação da ley orgánica de educación. No entanto, foram duas outras matérias, de menos destaque, que me chamaram a atenção. A primeira delas (que talvez eu desenvolva mais tarde em um post dedicado, quando me sentir apto) era uma entrevista com Isabel Allende, sobre seu novo livro que fala de escravidão e liberdade, tendo como pano de fundo a guerra de independência do Haiti, liderada por Toussaint Loverture, e a consequente fuga de famílias francesas (com suas mucamas, escravas-de-família) para New Orleans. A segunda, objeto desse post, trata de uma questão que vem me incomodando já há algum tempo: o preço das carros aqui na Venezuela, e, mais abrangentemente, as distorções observadas em um mercado regulado.

Alguns fatos que é necessário saber pra se entender o mercado de automóveis (e a analogia é válida para varios outros) na Venezuela:

Primeiro, o preço dos carros novos vendidos pelas concessionárias na Venezuela não é oficialmente regulado, ou seja, como no Brasil, existe uma tabela de preços sugeridos elaborada pelas montadoras, mas esse preço não tem que ser seguido necessariamente. No entanto, existe uma pressão enorme do estado bolivariano, que acusa vendedores de carros que não cumprem as tabelas de preços de serem especuladores e, portanto, crimonosos. Existem projetos de lei em transito na assembléia que preveem punições aos "especuladores" que variam de multas pesadas a até 3 anos de prisão.

Nesse cenário, outro elemento fundamental é a escassez de carros disponíveis para venda. Para se ter idéia, no período Jan-Jul de 2008 se produziram na Venezuela 85 mil carros, contra 175 mil vendidos (e essa demanda não deve cair, em um país onde a gasolina é dada de graça e o transporte público é extemamente deficiente), ou seja, mais da metade dos carros foram importados. Dadas as restrições que existem à obtenção de dólares para importações no país (no mercado oficial o dólar é cotado a Bs.F 2,15 enquanto no paralelo, ou seja, no mercado de facto, o dólar chega facilmente a Bs.F 6,50) não é difiícil prever que o que acontece é falta de oferta de veículos para atender à demanda existente. O tempo médio de espera nas listas das concessionárias para se obter um carro novo chega a seis meses. Você compra o carro em Janeiro e só começa a andar em Julho.

Obviamente, isso é quase um pedido pra que se desenvolva um mercado paralelo e, é claro, existe no país um mercado bastante desenvolvido de veículos de segunda mão, alguns recém saídos das concessionárias, que podem ser vendidos por preços bastante superiores ao de tabela.

Alguns exemplos trazidos hoje pelo jornal: o Toyota Corolla 2008 é encontrado no mercado de carros usados a Bs.F146.000, enquanto o mesmo carro, novo, tem preço de tabela de Bs.F 134.000. O Ford Fiesta novo sai por Bs.F 75.000 enquanto um modelo 2008 sai por BsF. 80.000

Para nós parece algo que deveria ser fundamental, mas o venezuelano paga ágios de até 10% para poder comprar uma mercadoria e recebê-la no momento da compra.

Essa distorção é também um grande estímulo para fraudes. A sede dos consumidores e a falta de opções faz com que eles sejam alvo fácil. Não é incomum que se venda, no mercado paralelo, o mesmo carro a mais de uma pessoa ou que, depois de efetuar o pagamento, o comprador descubra que se trata de um carro roubado. Os riscos do mercado secundário eram justamente o foco da reportagem do El Nacional, que alertava para a necessidade de compradores estarem atentos. No entanto, na minha opinião, o buraco é bem mais embaixo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

La cola


Uma coisa que chama a atenção na Venezuela são as filas. Aqui existe fila pra tudo: caixas eletrônicos, bancos, cinema, teatro, fast-food, lojas de qualquer tipo, postos de gasolina, tudo.

Desde o primeiro dia notei essa particularidade das coisas por cá e me perguntei qual seria a razão de tudo isso. Minha hipótese (é só uma hipótese) foi construída empiricamente a partir de algumas observações que fiz, já nas primeiras semanas.

Acredito que o que ocorra por cá seja um desequilíbrio evidente entre oferta e demanda (uh, gênio...) causada, por um lado, por um estímulo grande ao consumo gerado pelos programas estatais de distribuição de renda e, por outro, pela aversão ao investimento dos empresários, locais e estrangeiros, gerado pelo cenário... digamos... pouco confiável da economia e política locais.

Nunca na história desse país (e aqui a citação tem sim um caráter de analogia) tanta gente teve possibilidades reais de consumir . As sucessivas subidas do salário mímimo e o forte investimento em programas de distribuição de renda deram a milhões de venezuelanos a possibilidade de comprar (o impacto disso nas contas públicas é um problema de outra natureza, que não quero discutir aqui). E eles compram desesperadamente. O impulso consumista da população local, diz-se, é comparável ao dos americanos. Mas se, no Brasil, os programas de renda básica geraram um boom no mercado interno capaz de aquecer a produção industrial e gerar empregos de uma maneira poucas vezes vista, o mesmo não ocorre por aqui.

Em um cenário em que empresas de diversos setores são nacionalizadas, em que o estado fecha empresas preventivamente "para averiguações", em que a remessa de lucros é extremamente limitada, em que a taxa de câmbio é fixada por decreto (o que gera, obviamente, um mercado paralelo completamente distorcido) e em que o capital é visto como nada mais que uma ferramenta de exploração do trabalho e, portanto, inimigo do Estado, não é de se espantar que a propensão dos empresários a realizar investimentos seja tão baixa, mesmo com a demanda crescente. Parece simplemente lógico que as taxas de juros aqui sejam as mais altas do mundo.

Lembro desde o primeiro dia meu espanto com o fato de não ter visto guindastes em Caracas. Poucos prédios em construção, poucos empreendimentos. Ninguem que investir aqui. Obviamente as taxas de inflação, que só não são maiores que 30% a.a. nas estatísticas oficiais, só corroboram com a hipótese.

Ley orgánica de educación

Desde que cheguei à Venezuela, semana a semana, aconteceram fatos que evidenciam que o plano socialista de Chavez é, de fato - e coerente com o discurso -, um plano revolucionário, que está sendo posto em marcha, dia a dia, de maneira rápida e radical. A cada dia me deparo com um fato novo, uma manobra a mais, uma nova lei aprovada, uma nova instituição.

Se semana retrasada foi a invasão dos estúdios da Globovisión e semana passada foi o incidente com a Colômbia - que alega que o governo venezuelano forneceu armas para as FARC- , no qual Chávez chegou a retirar o embaixador veneuelano de Bogotá, essa semana foi a vez de a votação do nova lei organica de educação de Chávez tomar conta do noticiário.

A lei, que a oposição alega ser doutrinária, aumenta consideravelmente a influência do Estado no ensino do país, em todos os níveis. A lei versa sobre conteúdo programático, metodologia, pedagogia, organização, tudo. Tira a autonomia das universidades e submete o orçamento de ensino e pesquisa às intenções do governo (teria Chávez se inspirado em nosso querido governador José Serra?). Alguns pontos da lei chegam a soar bizarros como o fato de se eliminar o ensino religioso do programa, mesmo em instituições privadas de tal natureza.

O que me assusta na lei é um artigo que trata sobre os conselhos de administração escolar. Através dessa figura, os rumos da escola passariam a ser definidos em uma reunião em que estariam presentes docentes, diretores, pais e alunos. A idéia seria ótima, se não existisse nesse conselho a figura de um funcionário da estrutura do Estado, responsável por garantir que os rumos da discussão estejam dentro da doutrina socialista bolivariana.

Em meio a protestos violentos, em que vários cidadãos, sobetudo jornaistas, sairam gravemente feridos, a lei foi aprovada pela Assembléia Nacional, em que o PSUV de Chávez tem maioria, à meia noite de ontem. A oposição paga o preço pelo boicote que fez às eleições legilativas. Tenho que concordar com a máxima de que se há algo pior que Chávez, é a oposição feita a ele.

O transito em Caracas, ontem a noite e hoje de manhã estava impossível. Eu conversava com o taxista, Seu Alquimedes, sobre a nova lei, enquanto ele fugia da autopista e tentava, sem sucesso, escapar do transito pela Francisco de Miranda. Ele estava preocupadíssimo - tem netos novos e não sabe o que vai ser da educação deles. Disse que acha Chavez arrogante demais pra reconhecer erros, aprender e voltar atrás e por isso perdeu a esperança que já teve de que a revolução pudesse trazer algo de bom. Essa foi a primeira vez que fui do Meliá ao escritório com o rádio sintonizado nas notícias. O seu Alquimedes sempre preferiu as piadas e a Salsa do Fulchola na FM Center.